
Estou deitada e zonza, minha cabeça gira, vejo minha vida passar diante dos meus olhos como um flashback.
Até três meses atras não dava nenhum valor à vida, sei que tenho uma família e amigos maravilhosos, mas não enxergava isso e me arrependo amargamente.
Nunca fui solidária, não tinha tempo para isso, até que um dia precisei da solidariedade dos outros.
Estava saindo da escola e atravessava a rua em direção ao ponto de ônibus, quando apenas ouvi o barulho da freada, me virei assustada, só senti algo batendo em mim com tanta força que fui arremessada longe. Após isso, não vi mais nada, tudo ficou preto, a escuridão vinha traiçoeira e silenciosa, apenas sentia algo me consumindo por dentro e por fora, era o medo, nada passava pela minha cabeça, apenas sentia, sentia um medo profundo. O medo é como um veneno que vai paralisando todo o meu corpo e meu coração pouco a pouco. Não consigo me mover, o pânico me domina, como uma sombra me persegue, revelando o que existe de pior em cada um. Ele vai me levando para o mais profundo abismo, é como uma ancora que me leva amarrada para as mais obscuras profundezas do oceano, onde meu grito de socorro ecoa.
No dia seguinte acordo assustada, descubro que fiquei cega, o medo e o pânico batem novamente, um nó se forma em minha garganta, penso como vai ser minha vida agora, lágrimas escorrem pela minha face. Otávio meu melhor amigo entrou no quarto, sentou-se e enxugou minhas lágrimas, pediu para que eu não chorasse mais, que eu não tinha nada a temer, pois meus amigos e família estariam me ajudando e apoiando.
Ele me disse para não me abater que ele sempre estaria ao meu lado.
Os dias se passavam, tudo em minha vida havia mudado, apesar disso, continuava vivendo minha vida, indo para a escola e fazendo minhas coisas, mas agora eu precisava da ajuda e solidariedade dos outros.
Três meses após o acidente, recebo uma ligação. Eu havia ganhado um transplante de córneas.
A alegria era imensa, um dos mais belos sentimentos humanos, a melhor coisa que eu já havia sentido.
Estou deitada e zonza, minha cabeça gira, vejo minha vida passar diante dos meus olhos como um flashback. Olho ao meu redor posso enxergar novamente. A alegria era como um cobertor que nas noites frias me aquecia, como um jardim florido com seu perfume e beleza indescritível ela me preenche e me acolhe como o mais puro abraço de mãe. Mas de repente essa alegria estaciona, minha mãe havia me dado a notícia que o doador era o Otávio. Ele havia falecido no dia anterior devido a um aneurisma.
Começo a chorar, lágrimas de tristeza por ter perdido meu melhor amigo, aquele que me apoiou em todos os momentos, de alegria por voltar a enxergar e saber que um pedacinho dele sempre estará ao meu lado.
E parece que agora, alguns meses após o ocorrido consegui enxergar o verdadeiro valor da vida, através dos olhos de meu melhor amigo, Otávio.
by: Daniela Mendes :*





